sexta-feira, 1 de abril de 2011

Obstetrícia da USP protesta contra fechamento do curso

Com barrigas de bexiga e bebês de verdade nascidos com auxílio de obstetrizes, alunos e professores tentam sensibilizar reitoria

                                      Cinthia Rodrigues, iG São Paulo - em 22/03/2011

Um grupo de cerca de 150 pessoas protestou contra o fim do curso de obstetrícia da Universidade de São Paulo (USP) em frente à reitoria da instituição com barrigas de bexiga, bonecos e bebês de verdade. Eles tentam evitar o fim da carreira com a fusão da única graduação que forma parteiras do Brasil.
 
Na semana passada, um relatório final de um grupo de trabalho chefiado pelo ex-reitor da instituição, Adolpho Melfi, propôs o fechamento de 330 das 1.020 vagas atuais da USP Leste. O curso de Obstetrícia seria o mais afetado com a passagem das 60 vagas atuais para a Escola de Enfermagem, em Pinheiros.

De acordo com os autores do relatório, esta seria a solução por conta da falta de reconhecimento do profissional obstetriz pelo Conselho Federal de Enfermagem (COFEN) que deveria certificar os formados. Por enquanto, apenas ex-alunos que recorreram à justiça conseguiram uma liminar na regional de São Paulo.


Viemos para a frente da reitoria porque parece que eles não tem clareza de que este relatório foi feito sem a nossa participação”, disse a professora Ruth Osava. O documento diz que todos as sugestões foram dadas com base em reuniões com representantes de todos os cursos, mas segundo a docente, foi perguntado a eles apenas se havia algum problema. “Quando dissemos que havia essa pendência com o COFEN, era no sentido de buscarmos solução, jamais de fechar o curso que foi criado por uma necessidade do sistema de saúde brasileiro”, afirma.

A função seria a de humanizar o parto. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS) o recomendável é que apenas os 15% de partos que apresentam riscos à mulher ou à criança, sejam cesarianas. No Brasil, no entanto, 45% dos nascimentos na rede pública e até 90% na particular são cesáreas. Para as obstetrizes, a falta da parteira envia muitas mulheres para a sala de cirurgia desnecessariamente.

Se eles fecharem o curso, estarão cometendo um erro histórico para a saúde da mulher brasileira”, disse a aluna Flavia Estevan, uma das que participou de uma reunião com o diretor da USP Leste, Jorge Boueri, e outra com a pró-reitora de Graduação da USP, Telma Zorn, sobre o relatório. “As decisões estão mais adiantadas do que parece”, lamentou.

Obstetrícia pode não estar no vestibular

Segundo ela, a pró-reitora reforçou que o relatório não era definitivo e teria dito que ainda não o leu, porém, soube que o COFEN emitiu parecer contra a certificação das obstetrizes. “Ela disse que estuda não incluir o curso no vestibular como forma de sinalizar para o COFEN que cedeu. Para mim, isso se chama jogar a toalha”, afirmou Flavia.

Chorando durante boa parte do protesto sua xará, Flávia Chiamba, aluna do 5º ano disse que as lágrimas eram pelas mães que não teriam direito a um parto humanizado se o curso fosse fechado. “É por mim, pelo curso, mas por todas as mulheres.”

Também participaram alunos de outras áreas e profissionais como a enfermeira obstetra Adriana Caroci, que foi à manifestação com o filho Felipe, nascido em casa com a ajuda de uma obstetriz há 6 meses. Ela conta que sempre quis ser parteira, mas como não havia o curso de obstetrícia, optou por enfermagem e só depois se especializou. “Foi injusto comigo ter que ver muito conteúdo que não era o que sempre busquei para só depois fazer um ano do que queria trabalhar. Também é injusto com as gestantes porque na especialização acompanhamos partos por algumas semanas enquanto na graduação, as alunas têm três semestres de acompanhamento de parto. É uma preparação muito maior”, disse.


Mais protestos e abaixo assinado

A estudante de Gestão de Políticas Públicas e diretora do Diretório Central Estudantil, Mayara Ferreira disse que os protestos continuarão durante toda a semana. Na quarta, uma assembleia debaterá o tema na USP Leste e na quinta um grupo pretende ir a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo, onde o reitor da USP, João Grandino Rodas, foi chamado a falar sobre outros questionamentos da universidade, como a recente demissão de funcionários.

Vamos fazer isso com obstetrícia e com todos os cursos prejudicados”, disse. Deputados do PT receberam um grupo de alunos e já falam na criação de uma comissão só para tratar do assunto. Pela internet, um grupo mantém um abaixo-assinado online pela manutenção de obstetrícia que nesta terça-feira já contava mais de 5 mil assinaturas.

A diretoria da USP Leste informou que se reuniu com o COREN na segunda-feira e agendou para a próxima semana um encontro na sede da entidade com a presença de representantes de alunos, professores e o assessor técnico do conselho que também é pesidente da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, Francisco Cordão.

A professora Elizabete Franco Cruz, penúltima a falar, disse que é favorável ao diálogo com o COFEN, mas não permitirá o questionamento da competência das obstetrizes. “Se alguém tiver dúvida disso, eu venho aqui dar uma aula em público para provar.”

Ninguém da reitoria deu atenção à manifestação que também não gerou conflitos. O último recado: “Pessoal, agora vamos marchar, dêem uma olhada se não ficou nenhuma bexiga estourada no chão”.

USP Leste: alunos e docentes reclamam de fechamento de vagas

Conclusão de grupo de trabalho que revisou cursos da unidade sugere o corte de até 330 das 1.020 vagas atuais da unidade

Cinthia Rodrigues, iG São Paulo - em 18/03/2011
 
Alunos e professores do campus Leste da Universidade de São Paulo (USP) foram surpreendidos pela notícia de que 330 das 1.020 vagas da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) podem ser fechadas. Conforme o iG antecipou na quinta-feira, um grupo de trabalho que revisou os cursos sugere redução de alunos em todas as áreas.


O relatório é a conclusão de um trabalho iniciado em junho de 2010 e realizado pelo ex-reitor da universidade Adolpho José Melfi, além de professores da unidade e de outros departamentos da instituição. Na tarde desta sexta-feira, a direção da unidade enviou por email a todos os alunos e professores cópia do relatório com uma mensagem da direção.

Segundo o boletim online, o grupo se reuniu 11 vezes antes de concluir a sugestão do fechamento de pelo menos 10 vagas em cada curso, até 80 em alguns casos e a fusão em outro (veja tabela abaixo). Embora no relatório, a ênfase seja a redução de vagas para aumentar a concorrência e a qualidade dos estudantes, a mensagem da diretoria enfoca a falta de espaço físico para atender aos cursos atuais e diz que a proposta ainda será debatida. “Este relatório será debatido primeiramente entre Comissão de Graduação, os Coordenadores de Curso e a Direção”, diz a edição especial do boletim “Direto da Direção”.

O informativo dá especial atenção ao curso de Obstetrícia, que segundo sugestão do relatório, passaria a fazer parte de Enfermagem, que fica em Pinheiros. “A Each não se furtará em promover novos ajustes na estrutura curricular do curso de Obstetrícia e poderá, ouvindo o conjunto de sugestões pertinentes, adequar algumas disciplinas de modo a contemplar o estudo do ser humano com conteúdos gerais, mais próximos aos cursos de enfermagem tradicionais, o que poderá levar à mudança na sua denominação”, diz o comunicado do diretor José Boueri.

Protesto e perplexidade

Professores da USP Leste contam que souberam da proposta de corte de vagas pelo iG. “Estamos perplexos”, diz a professora Jaqueline Brigagão, de Obstetrícia. Segundo ela, os alunos leram a reportagem e cobraram respostas desde a primeira aula da manhã desta sexta, mas apenas alguns dos docentes haviam recebido o relatório na noite anterior. “Não pudemos ler e debater nada ainda, não concordamos com esta visão baseada na demanda do curso e queremos frisar a importância da carreira para humanizar o parto no Brasil, como acontece nos países mais desenvolvidos do mundo”, afirmou.

Thomás Haddad, coordenador do curso de Licenciatura em Ciências Naturais, que pode perder 80 das atuais 120 vagas e passar a funcionar apenas em um período, disse que haverá uma reunião na próxima semana para definir o posicionamento dos professores. “O que posso lhe adiantar é que a maioria dos colegas que já se manifestaram considera o corte grande demais, especialmente a supressão de todo o período matutino do curso.”

Estudantes e ex-alunos fizeram uma manifestação contra a conclusão que pede o fechamento das vagas. Segundo o membro da Associação de Obstetrízes da USP e ex-aluno do curso, Marcel Robledo Queiroz, em reunião com os docentes foram encontrados erros no documento. “O que eles sugerem de mudanças nas disciplinas já existe, não sei de onde tiraram algumas informações.”

A direção da Each enviou um comunicado oficial em que explica por que o grupo foi montado e diz que a instituição "Não pode se furtar de suas responsabilidades".

USP Leste pode fechar mais de 300 vagas

Grupo de trabalho composto por direção e professores do campus sugere redução das vagas para aumentar nota de corte no vestibular
                                                           Cinthia Rodrigues e Tatiana Klix, iG São Paulo em 17/03/2011
Inaugurado em 2005, o campus Leste da Universidade de São Paulo (USP) pode perder até 330 das 1.020 vagas oferecidas atualmente. O iG teve acesso ao relatório de conclusão do grupo de trabalho da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (Each) que estudou a revisão dos cursos da unidade por conta de baixa demanda. A proposta pede a diminuição de pelo menos 10 vagas em cada carreira.

Segundo o relatório, as salas de aula da unidade foram feitas inicialmente para atender turmas de 50 alunos, mas os vestibulares ofertaram 60 vagas por ano em cada uma e, com as repetências, há algumas turmas com 65 a 70 estudantes, o que comprometeria o aprendizado. Além disso, seguindo as diretrizes apontadas pela reitoria da USP no ano passado, todos os cursos com baixa demanda foram reavaliados e, em alguns casos, a sugestão é que as vagas sejam reduzidas de 120 para 40.

O relatório também aponta a intenção de tornar a seleção mais rigorosa: “Esta redução sugerida teria um efeito imediato no aumento da relação candidato-vaga, já que a procura por alguns dos cursos da EACH é bastante reduzida. Enfim, de modo geral, teríamos um aumento na nota de corte e, certamente, uma elevação na qualidade dos alunos ingressantes, algo desejado por toda a universidade”, diz o documento assinado por um grupo de trabalho formado pelo ex-reitor da instituição durante a criação da USP Leste, Adolpho José Melfi, e professores tanto da EACH quanto de outras unidades.

Em alguns cursos a redução de vagas seria bem maior. A proposta é reduzir pela metade as 60 vagas de Ciências da Atividade Física, de 120 para 80 as de Gestão Ambiental e cortar uma turma de Licenciatura de Ciências da Natureza, reduzindo de 120 para 40 ou 50 vagas. O pior caso seria o de Obstetrícia que poderia ser fundido com o curso da Escola de Enfermagem, perdendo todas as 60 vagas atuais.


Novos Cursos

Em contrapartida seriam criados mais dois cursos com 30 vagas cada. Um deles, o de Mídias Digitais, já está aprovado pelo Conselho Universitário e outro, de Design de Serviços, foi sugerido pelo diretor da USP Leste, Jorge Boueri, em 2010.

O relatório pede ainda transparência na função dos docentes e a revisão de disciplinas optativas que estaria formando turmas muito pequenas. “Uma situação que chamou a atenção é a existência de um curso onde havia 11 alunos matriculados em uma disciplina, com 29 docentes arrolados e todos com igual atribuição de atividade didática”, diz o relatório.

A direção da instituição não quis comentar o relatório. Segundo a assessoria, as sugestões serão agora apresentadas aos coordenadores dos cursos e ainda podem sofrer mudanças antes de serem enviadas à reitoria. No ano passado, a USP lançou novas diretrizes para criação de cursos que pediam a revisão de carreiras com baixa demanda.

Cursos existentes vagas atuais corte de vagas como ficaria

Ciências da Atividade Física 60; 30; 30

Gestão Ambiental 120; 40; 80;

Gerontologia 60; 10; 50

Gestão de Políticas Públicas 120; 20; 100

Licenciatura em Ciências da Natureza 120; 80; 40

Lazer e Turismo 120; 20; 100*

Marketing 120; 20; 100

Obstetrícia 60; 60; 0**

Sistema de Informação 180; 30; 150

Têxtil e Moda 60; 20; 40

Total 1.020; 330; 690

Novos cursos

Mídias Digitais 30

Design de Serviços 30

** curso se fundiria com o de enfermagem; *se a baixa procura persistir, uma turma seria extinta e mais 50 vagas seriam cortadas;