sexta-feira, 1 de abril de 2011

Estudantes protestam contra ameaça de fechamento de curso da USP Leste

No Masp, alunas, parteiras e mães defenderam faculdade de obstetrícia. Universidade propõe fusão do currículo com o curso de enfermagem.
                                  Luna D'Alama  Do G1, 26/03/2011 em São Paulo

Dezenas de alunos do curso de obstetrícia da USP se reuniram no vão livre do Masp Segundo a coordenadora do curso, Nádia Narchi, os professores e alunos são contra essa mudança porque, apesar de profissões “irmãs”, as duas áreas representam paradigmas profissionais diferentes. “Se a gente for diluído na enfermagem, não vamos construir um campo de conhecimento próprio. Não aceitamos essa proposta e queremos que a USP compreenda a importância social e acadêmica da nossa profissão.”

Nádia disse, ainda, que a USP está se dobrando ao Conselho Federal de Enfermagem, que tem dificultado o registro de obstetrizes formadas, também pouco reconhecidas pelo mercado. “Há duas saídas possíveis: a reformulação curricular ou a contestação judicial, mas a USP optou pela saída covarde, de atender ao conselho”, afirmou a coordenadora.

Atualmente, o curso de obstetrícia da USP Leste, que pertence à Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), tem cinco turmas de 60 alunos cada e duas já formadas. A graduação tem uma duração de quatro anos e meio e, em 1974, já sofreu com a extinção e a fusão à enfermagem – ressurgindo em 2004. A estudante Jéssica Nascimento, do terceiro ano, afirmou que a universidade quer reduzir 330 das 1.020 existentes nos dez cursos do campus. “A enfermagem não tem estrutura para nos abrigar”, avaliou.


Para a aluna Flávia Estevan, também do terceiro ano, "a faculdade surgiu como um pedido de movimentos sociais para atender à demanda brasileira de partos normais e para reduzir o número de cesarianas”.

De acordo com ela, o objetivo é acabar com a “fábrica de cesáreas”, já que 90% dos partos na rede privada do país e 50% do Sistema Único de Saúde (SUS) são desse tipo, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda no máximo 15% nos dois sistemas juntos. “Hoje, o médico é o protagonista e a mulher passa por uma cirurgia. Gravidez não é doença”, destacou Flávia.

A enfermeira obstetra Vilma Nishi, que atua há 35 anos com partos humanizados e já fez mais de 700 em residências, acha que enfermeiros e obstetrizes devem unir forças, porque a figura mais importante dessa história é a mulher. “Nunca vi a USP fechar um curso”, lamentou.

Alckmin defende manutenção de curso de obstetrícia na USP LesteSegundo a administradora Priscila Ariani, mãe de Francisco, de 3 anos e meio, e Arthur, de 9 meses (o primeiro nasceu de cesariana e o segundo, de parto normal em casa), a cesárea é uma invasão e uma falta de respeito ao momento mais especial na vida de uma mulher. “O médico vem com um suposto saber, o bebê é retirado de você, fica no seu colo por 2 minutos e depois preciso me recuperar da anestesia”, disse. Priscila acredita que o médico entende o parto como um procedimento cirúrgico, não como o nascimento de um filho.

Em comunicado, a direção da universidade diz que “a avaliação permanente da graduação e a revisão dos cursos da EACH é absolutamente natural, indo de encontro às demandas sociais, científicas e tecnológicas da sociedade”. “A principal preocupação é com os egressos e com os alunos que estão cursando obstetrícia. Se for necessária outra reformulação do curso, ela será feita”, afirmou Telma Zorn, pró-reitora de graduação.

Coordenador da USP deixa Assembleia sem falar após intimidação

Representante da diretoria foi provocado, vaiado e saiu escoltado de audiência pública. Ao iG, disse que é contra fim de curso

                                    Cinthia Rodrigues, iG São Paulo - em 24/03/2011

O evento foi agendado pelo deputado Carlos Gianazzi (Psol) para debater recentes demissões e gastos com compra de imóveis na USP. Com a divulgação na semana passada do relatório que prevê o fechamento de 330 das 1.020 vagas da USP Leste e o fim do curso de Obstetrícia, ganhou o apoio dos estudantes.

O convite oficial para prestar esclarecimentos foi feito ao reitor, José Grandino Rodas, que não compareceu. Costa foi convidado paralelamente pelo deputado por telefone e aceitou. “Na terça-feira liguei para o reitor e avisei que iria. Ele disse que não compareceria, mas que não via problemas na minha presença”, conta.

Último chamado a compor a mesa da audiência, o coordenador foi muito vaiado. Por cerca de duas horas, representantes dos professores, funcionários e alunos se alternaram ao microfone com deputados que pediam a saída de Rodas. “O nosso objetivo aqui é um só: rodar o Rodas. Ele não tem moral para continuar reitor”, disse o diretor do sindicato dos funcionários, Magno Carvalho. O presidente da associação dos docentes da USP (ADUSP), João Zanetic, disse que não respeita o reitor “nem como acadêmico, nem como colega”.

A provocação ao representante da direção começou enquanto uma das funcionárias demitidas pela USP em janeiro fazia um pronunciamento. Atrás de uma pilastra, uma mulher cutucou o ombro de Costa. “Você não tem nada que estar aqui, pau mandado”, disse a mulher que assumiu à reportagem do iG a intenção de provocar o representante da universidade, mas não quis se identificar. “Estou aqui porque fui convidado, a senhora não tem o direito de me agredir”, respondeu o Coordenador de Relações Institucionais.

Em seguida, um outro rapaz se dirigiu a Costa, que pediu a ele que falasse ao ouvido por causa do barulho. “Você não tem que falar nada, tem que ficar com o ouvido doendo e só”, afirmou o jovem em volume suficiente para a reportagem que estava a um metro de distância escutar. Costa, imediatamente, fechou a pasta e saiu. “Agora vocês expliquem no microfone porque eu não vou falar nada.”

Ninguém esclareceu, e os estudantes cercaram o coordenador na saída aos gritos de “covarde”. Foi preciso que policiais militares o escoltassem até uma escada.

Por telefone, Costa afirmou que também já foi presidente da ADUSP e entende as manifestações. “Eu fui um dos que defendi a criação da USP Leste e o curso de Obstetrícia, eu ia lá conversar com a comunidade. Até em reunião em igreja eu fui. Não mudei de ideia de 2004 para cá, sou contra o fechamento da carreira”, disse.

Na época da criação do campus, o atual coordenador de Relações Internacionais era prefeito da Cidade Universitária. Para ele, a comissão que fez o relatório sugerindo o fechamento de vagas errou. “Primeiro por não ter representante de obstetrícia, segundo por não ter debatido a questão e, terceiro, por ter divulgado antes de conversar com os interessados”.

Costa acredita que a união provocada pelo documento entre professores, funcionários e estudantes ainda terá consequências maiores. “A USP Leste é um projeto social, qualquer coisa que se faz lá tem repercussão. O que vimos hoje na Assembleia é um tsunami. A mobilização dos alunos é impressionante

Governador promete ajuda contra fechamento de curso da USP Leste

Alckmin se reuniu com alunas de obstetrícia que foram a evento pedir apoio contra fim da carreira e corte de vagas

                                   Cinthia Rodrigues, iG São Paulo - em 23/03/2011
Um grupo de alunas de obstetrícia da Universidade de São Paulo (USP) que protestam contra o possível fechamento do curso foi recebido na manhã desta quarta-feira pelo governador Geraldo Alckmin. Elas aproveitaram um evento com a presença do político na zona leste, onde fica o campus em que estudam, para chamar atenção do governante e acabaram atendidas pessoalmente.


Na semana passada foi divulgado um relatório que sugere o fechamento de 330 das 1.020 vagas da USP Leste e a fusão de obstetrícia com enfermagem encerrando a carreira. Desde então, as estudantes fizeram protestos na unidade, em frente a reitoria da instituição e, nesta quarta-feira, na porta de uma unidade da polícia militar visitada por Alckmin para anúncio de mudanças no sistema de boletins de ocorrência.


Logo que o governador chegou, a assessoria procurou uma representante do grupo e avisou que ele as atenderia ao final do evento. Nove alunas se reuniram com Alckmin e explicaram que o curso estava ameaçado. “Ele disse que é simpático a nossa causa e entende a importância da carreira para o parto humanizado”, contou a aluna, Mariana Gervásio. “Ele ficou bastante sério, pediu contatos da coordenadora e prometeu ajudar”, diz a colega Thaís Peloggia.

Segundo elas, assim que começou a ouvir as reclamações, Alckmin pediu a um dos assessores que ligasse para o reitor, João Grandino Rodas, mas o celular estava desligado. Ele prometeu então, avaliar o que poderia fazer. A assessoria do governador confirmou que ele se dispôs a "estudar as reivindicações".

Nesta quinta, o grupo pretende comparecer a uma audiência pública na Assembléia Legislativa que aguarda a presença do reitor para falar sobre questionamentos em relação à universidade. Outra reunião sobre o curso de obstetrícia foi marcada para a próxima segunda-feira com o Conselho Regional de Enfermagem (COREN), órgão que emite a certificação das obstetrizes formadas. Embora a regional já tenha dado algumas carteirinhas, o Conselho de Enfermagem Nacional (COFEN) emitiu parecer contra a prática.


A sugestão de cortes

O relatório que gerou os protestos foi feito pelo ex-reitor da USP Leste Adolpho Melfi e um grupo de professores tanto da unidade quanto de outros departamentos. O documento revisa os cursos da USP Leste conforme a demanda e sugere o fechamento de pelo menos 10 vagas em cada um dos cursos para aumentar a concorrência no vestibular. No caso de obstetrícia a sugestão é a fusão com o curso de enfermagem, que fica em Pinheiros.